: CURIOSIDADES
.
A edição oficial deste álbum é
acompanhada por um DVD onde Bruce interpreta alguns
temas acústicos a solo.
. É lançado nos Estados Unidos em formato
Dual Disc, um misto de CD e DVD no
mesmo disco, com dados em ambos os lados.
. Além do CD "normal", estava inicialmente
previsto o lançamento de uma edição
especial, no género do formato alternativo de
"The
Rising",
mas tal acabou por não acontecer.
. Pela primeira vez na carreira do Boss,
um trabalho seu tem direito ao famoso autocolante na
capa, com o texto "Parental Advisory: Explicit
Content", devido ao tema "Reno",
mas essencialmente nos Estados Unidos.
. A capa do álbum foi fotografada por Anton
Corbijn, o autor de outros trabalhos, como
por exemplo: "The Joshua Tree"
dos U2. |
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DISCOGRAFIA
DEVILS & DUST
A VOZ DOS FÃS
"Devils
and Dust", o novo álbum de Bruce
Springsteen, é lançado na próxima
terça-feira. Aos 55 anos, o "Boss"
regressa ao registo intimista de discos como "Nebraska"
e "The Ghost
Of Tom Joad" e às pequenas histórias
de cidadãos anónimos entregues aos seus pequenos
dramas pessoais, a maioria no cenário mítico do
sudoeste norte-
americano. O novo disco, contudo, não é tão
acústico e folk como alguns esperariam. Produzido por
Brendan O' Brien, que surge também no
baixo e tendo Steve Jordan na bateria, conta
com uma fatia significativa de arranjos, seja o violino de Sozzie
Tyrell, seja as cordas da Nashville String
Machine, seja os teclados do próprio Springsteen.
Alterna temas sombrios e lentos como "Silver
Palomino"
ou "The Hitter"
com outros alegres e exultantes ("Leah",
"All
I'm thinking about"). As canções
que compõem "Devils and Dust" começaram
a nascer, na sua maioria, há cerca de dez anos atrás,
quando da tournée a solo de "The Ghost Of Tom Joad".
Bruce Springsteen contou à Associated Press que, no fim
dos concertos, ía para o hotel e como ainda não
tinha desgastado a voz como normalmente acontecia quando cantava
com a E-Street Band, se punha a cantar e a
compor no quarto.
Foi nessa altura que nasceram dois dos novos temas, "The
Hitter" e "Long
Time Comin'", que inclusivamente foram cantadas
nos espectáculos da tournée mas posteriormente
deixadas na gaveta até agora. Os restantes temas, com
excepção de "Devils and Dust",
estavam compostos por alturas de 1997. Bruce Springsteen, contudo,
teria outras prioridades. Em 99, reuniu a E-Street Band ao fim
de dez anos de jejum e partiu para a estrada. Em 2002, lançou
"The Rising",
uma obra que nasceu do pó e do vazio deixado pelo 11
de
Setembro.
"Devils and Dust", o álbum que terça-feira
estará nas lojas, acompanhado de um DVD de 30 minutos
realizado por Danny Clinch, é diferente.
Não nasceu de nenhuma necessidade imperiosa de cantar
a dor americana, como em "The Rising". Se há
um tema verdadeiramente actual no novo álbum, é
"Devils and Dust", composto em 2003, sobre a Guerra
do Iraque. Tudo o resto são, entre uma outra canção
amorosa, "short stories", pequenos contos sobre personagens
anónimas: Uma prostituta de Reno, Nevada, um ex-pugilista,
os imigrantes que atravessam a salto a fronteira entre o México
e os Estados Unidos.
O álbum abre com o tema que lhe dá o nome, o mais
forte, o mais devastador. A perspectiva é a de um soldado
americano perdido nas areias do deserto iraquiano, o dedo no
gatilho e sem saber em quem confiar. A voz de Bruce Springsteen
ergue-se na desolação, as cordas da Nashville
String Machine encadeiam o passo, a harmónica rasga o
horizonte e os versos dão murros no estômago: "I
got my finger on the trigger but I don't know who to trust",
"where a long, log way from home", "I got God
on my side, I'm just trying to survive".
Em "Devils and Dust", a Guerra do Iraque que nos rebenta
em imagens no cérebro, é a guerra do lado das
trincheiras. A canção é como uma carta
que alguém escreve a amada e aos amigos lá de
muito longe, de um lugar em chamas: "Well I dreamed of
you last night in a field of blood and stone/ the blood began
to dry/ the smell began to rise".
A partir do primeiro tema, o álbum diversifica-se. "All
the way home", foi composta há muito
tempo pelo "Boss" e gravada em 91 por Southside
Johnny no álbum "The Better Days".
Aí, surge como uma balada melosa e soul. Agora, Bruce
deu-lhe um toque mais "roots rock", com a batida forte
e sincopada da bateria de Steve Jordan e a pedal steel de Marty
Rifkin. De todos, "All the way home" parece
o tema menos inovador e mais previsível do álbum.
É a partir de "Reno"
que o "Boss" regressa à criação
de personagens de quotidianos marginais. Eis uma balada lenta
que começa à Bob Dylan ou Woody
Guthrie e se vai desembrulhando aos poucos. O narrador
envolve-se com uma prostituta de Reno, a slide acústica
por trás, o pensamento no rio mexicano de Amatitlan batido
pelo sol e no sorriso de Maria, lá longe, no Vale de
dos Rios. A balada termina com a orquestração
delicada da Nashville String Machine.
Ao contrário de "The Ghost of Tom Joad", em
"Devils and Dust", os arranjos e a produção
parece-nos mais madura e mais omnipresente, seja o violino de
Soozie Tyrrell, seja a pedal steel, o uso de slide na guitarra
de Springsteen, a presença da Nashville String Machine
ou a presença de metais. Por outro lado, a temas mais
lentos, mais folk e acústicos como "Reno",
Bruce contrapõe canções mais alegres, como
é o caso de "Long Time Comin'".
Esta última corta com as imagens do quarto sórdido
da prostituta de Reno e canta o amor, com ritmo suficiente para
entusiasmar a plateia. Os amantes não são propriamente
novos, já fizeram os seus disparates na vida mas a noite
é de regresso e reconciliação junto a uma
fogueira, duas crianças a dormir em sacos camas por perto.
"It's been a long time coming my dear, it's been a long
time comin' but now it's here", canta.
"Black
Cowboys" pode ler-se e escutar-se como um
pequeno conto, uma "short story" sobre a vida secreta
de Rainey Williams, que o "Boss"
transforma numa balada sombria, alimentada no final pelos coros,
o teclado, a secção de metais e as cordas da Nashville
String
Machine.
"Maria's
Bed" produz, em relação a "Black
Cowboys", o mesmo efeito vivificante que "Long Time
Comin" produziu a seguir a "Reno". Adeus solidão
e tristeza. "Maria's Bed" traz-nos uns pózinhos
de Stones e a country rock dos Creedence
Clearwater Revival. A batida rock é demolidora,
o violino e os teclados celebram a felicidade de poder partilhar
a cama de Maria ao fim de 40 dias a, supõe-se, patrulhar
a fronteira.
O resto do álbum evolui entre as narrativas lentas e
desoladas de temas como "The Hitter", "Silver
Palomino" ou "Matamoros
Banks" e celebrações festivas
como "Leah" ou "All I'm thinking about".
O tema "Silver Palomino", desenrola-se sob os céus
do West Texas. Um rapaz de 13 anos sobe à montanha e
canta a perda da mãe: "As I rise
higher I can smell your hair/ The scent of your skin, mother,
fills the air". Em "The Hitter", Bruce canta
em toada lenta, folk, a história de um ex-pugilista que
depois de uma vida turbulenta e violenta, pede à mãe
que lhe abra a porta. Em "Matamoros Banks", por seu
lado, regressa aos cenários de fronteira e ao tema da
imigração hispânica a salto, como em "Across
the border" ("The Ghost Of Tom Joad").
É mais uma balada lenta com
uma guitarra que lembra o dedilhar texano de Willie
Nelson no álbum "Spirit".
É a mesma atmosfera, o mesmo pano de fundo, as margens
do Rio Grande, as luzes da prometida Brownsville, do outro lado
da fronteira.
"Leah" e "All I'm thinking about" são
ambas duas canções
alegres, "Leah" surpreendendo-nos com a sua trompete
mariachi e a segunda um honky tonk cantado em falsetto bem mais
próximo de Nashville do que de New Jersey, uma espécie
de rockabilly acústico, com muito balanço, a slide
acústica acabando atravessada pelos uivos selvagens do
Boss. Por fim, "Jesus
was the only son" é o gospel do album,
com teclados e coro gospel, cantado como numa igreja sulista,
com um piano delicado por trás.
O cd vem acompanhado de um DVD de 30 minutos realizado por Danny
Clinch e no qual Bruce Springsteen canta, só
com a guitarra, numa casa muito working class, onde até
o candelabro lembra o da foto interior de "Nebraska"
(82), os seguintes temas do disco: "Devils
and Dust", "All the way home", "Reno",
"All I'm thinking
about" e "Matamoro's Banks". Entre os temas,
o "Boss" conta como foi contratado, aos 22 anos, como
"acoustic act", fala das personagens do disco e explica
o sentido geral do álbum. São "histórias
individuais de pessoas em luta contra os seus demónios,
pessoas lutando contra as suas confusões, às vezes
bem, outras vezes de forma trágica", explica.
Agora, a primeira fase da tournée de "Devils and
Dust" chegará em fins de Maio à Europa com
concertos intimistas em salas de cinco a seis mil pessoas. Mais
uma vez, Portugal não está incluído mas
José Maria Cámara, Chairman da
Sony BMG para a Península Ibérica garantiu-
nos que quer repor Portugal no mapa do Boss já da próxima
vez.
Nuno Ferreira |
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Quase 3 anos depois de "The
Rising", Bruce lança-se
em mais um álbum a solo. A última vez aconteceu
em 1995 com a edição de "The
Ghost of Tom Joad".
Este trabalho marca também o regresso de Brendan
O'Brien no lugar de produtor, o mesmo do último
disco de originais "The
Rising".
: AGRADECIMENTOS
Nuno Ferreira fala de um álbum de histórias,
acústico e intimista, num texto também publicado
no jornal O Público no dia 22 de Abril
2005.
Nuno Ferreira é também o autor
do blog Estradas
Perdidas.
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