DISCOGRAFIA
HAMMERSMITH
ODEON LONDON '75
EM ESTADO DE GRAÇA
Existe
uma palavra no léxico da dramaturgia que ajuda a compreender
melhor Hammersmith Odeon London '75, o duplo ao vivo
de Bruce Springsteen acabado de lançar. A palavra é «peripécia».
Significa o momento de viragem, no qual o enredo muda subitamente
de sentido e tudo fica diferente. O momento de viragem na carreira
de Springsteen foi precisamente o ano de 1975. Esta gravação
consiste numa evocação desse período mágico.
O livreto do CD inclui um interessante texto de Springsteen,
no qual descreve a primeira viagem a Londres como momento mágico
mas confuso em que um bando de provincianos de New Jersey se
transforma num projecto essencial da cultura pop global. De
algum modo, a primeira viagem transatlântica representa o corte
simbólico com o passado e inaugura a passagem da banda ao estrelato.
Considere-se o contexto. Em 1972, Springsteen assinou contrato
com a Columbia. Para estúdio levou um conjunto de músicos de
New Jersey. Gravaram Greetings From Asbury Park, NJ.
O disco, editado em Janeiro de 1973, passou despercebido. Reincidiram
em Setembro do mesmo ano com The Wild, The Innocent and
the E-Street Shuffle e tiveram igual (falta de) sorte.
No ano seguinte, Springsteen reviu a composição da banda, deu-lhe
o nome de E Street Band e começou a trabalhar na terceira e
última chance dada pela editora. O resultado foi Born to
Run. Editado em Agosto de 1975, o disco constituiu um enorme
sucesso. Foi nessa altura que um crítico encantado disse ter
visto o futuro do rock'n'roll. Tamanha era a convicção que abandonou
a escrita para se tornar manager da banda. E assim, de repente,
um disco virou tudo do avesso. O que viria a seguir já é conhecido:
o movimento punk empurrou o Boss para o centro mas a sua trajectória
foi sempre fiel ao estilo que lhe valeu a celebridade e a reputação:
uma mistura personalizada de rock dos anos 50, 60 e 70, entre
a energia de um Jerry Lee Lewis, a pureza de espírito dos blues
e líricas com a qualidade dos mestres como Bob Dylan. O estatuto
de estrela não lhe tirou a inspiração e discos como The
River, Born in the USA e o recente e injustamente
pouco escutado Devils and Dust, são referências obrigatórias
na música americana.
Hammersmith Odeon London '75 é um testemunho do tal
momento de viragem. Gravado há mais de 30 anos, ainda hoje é
fácil perceber as razões do entusiasmo. Trata-se da actuação
de uma banda em estado de graça. O disco é monumental e um fabuloso
exemplo do que deve ser um «live»: grandes canções, energia
a rodos e a noção clara de que no palco se passava algo de especial.
Nesse sentido, mais do que um documento para a história, Hammersmith
Odeon London '75 é um daqueles casos em que se pressente
que, mais que um concerto, se está perante uma revelação. É
tal a explosão de entrega e de energia que, mesmo a escuta,
tira o fôlego ao ouvinte. Um enorme espécime obrigatório do
disco ao vivo.
Miguel Cunha |
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Este registo agora editado em duplo CD audio, faz parte (em
versão DVD), da edição especial lançada em 2005: Born
to Run
30th Anniversary.
"Em estado de graça" é o título da
crítica ao álbum, escrita por Miguel Cunha
e publicada no jornal Blitz, na edição nº1115
de 14 de Março 2006, onde ainda recebeu a nota de 8/10.
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