: CURIOSIDADES
.
O lançamento deste álbum serviu também
como pretexto para a reunião da E Street
Band.
. Gravam alguns temas em estúdio, situação
que não acontecia desde o registo do álbum
"Born in the U.S.A." em 1984.
. Apesar desta reunião da banda, só voltariam
a estar de novo juntos em 1999, quando partem para uma
digressão mundial, oportunamente apelidada: The
Reunion Tour. |
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DISCOGRAFIA
GREATEST HITS
A VOZ DOS FÃS
Bruce
Springsteen regressa às lides discográficas
e à gravação com a famosa E Street
Band, com quem atingiu os picos da fama e com a qual
não gravava desde “Born In USA”.
Enquanto isso, tudo indica que a cerimónia de entrega
dos “Grammys”, na quarta-feira, reservará
um lugar de destaque a si e à canção “Streets
Of Filadelphia”.
Quando amanhã for posto à venda o novo album de
Bruce Springsteen, os cépticos encolherão
os braços. Trata-se de um “Greatest Hits”
com apenas duas canções inéditas, “Secret
garden” e “This hard land”.
A última, inclusivamente, é bem conhecida dos
que assistiram ao seu concerto de 93 em Lisboa ou compraram
as gravações piratas. O que é verdadeiramente
importante neste regresso é que pela primeira vez desde
1984, Bruce gravou os dois temas com a E
Street Band que dissolvera de forma assaz lacónica
em Novembro de 1989.
Roy Bittan, Clarence Clemons,
Danny Federici, Nils Lofgren,
Patti Scialfa, Garry Tallent,
Max Weinberg e o amigo de sempre Steve
Van Zandt responderam à chamada, na New York’s
Hit Factory. Bruce prepara-se para comparecer
na quarta-feira na cerimónia de entrega dos “Grammys”,
prémios da indústria musical, para os quais foi
nomeada “Streets Of Filadelphia”.
Aos 45 anos, estará a chegar ao fim o ciclo de retiro
e algum acomodamento iniciado em 89? Quererão estas novas
gravações indiciar que o novo album de originais
contará de novo com a que já foi considerada em
tempos a melhor banda ao vivo de rock’roll?
Springsteen afirmou-se, no seio de uma cultura
popular americana, pujante e dominadora durante o século
XX, como a voz da América profunda. Tal como John
Ford ou Martin Scorsese, no cinema,
Steinbeck na literatura ou Edward Hopper,
na pintura, a sua temática é o grande continente.
Em mais de 20 anos de canções, tem cantado o sonho
americano à medida do seu proprio sonho de rocker que
aos 8 anos viu Elvis no Ed Sullivan
Show e quis que lhe comprassem uma guitarra.
Com Bruce Springsteen e os seus épicos
concertos de três horas e meia, o público num enorme
e sussurrante “Bruuuuce, Bruuuuce”, temos a América
cantada sob a energia e a intensidade do melhor rock’n
roll. Herdou a vitalidade em palco dos primeiros rockers, incorporou
a rebeldia contestatária de Woody Guthrie
e moldou tudo à sua propria imagem.
Este é, no entanto, um rocker singular. Provavelmente
pela primeira vez na história do rock’nroll, a
estrela não envereda pela auto-destruição
depois de um período de grande criatividade nem continua
de forma patética a tentar perpetuar uma juventude que
já perdeu. Ao longo de 22 anos, ao envelhecimento de
Springsteen corresponde uma evolução
gradual das suas letras, do idealismo juvenil de “Born
To Run” ao desencanto amargo de “Darkness
On The Edge Of Town”, da dúvida e inquietação
amorosa de “Tunel Of Love” até
ao optimismo de pai de família de “Lucky
Town”.
A viagem começa em Freehold, New Jersey, a 23 de Setembro
de 1949. Douglas, o pai de Bruce,
de origem irlandesa, tenta ganhar a vida assumindo diversos
empregos, de jardineiro a guarda prisional, de motorista a operário
fabril. Adele, a mãe, é de origem italiana e ambos
fazem questão que Bruce receba uma educação
católica.
Freehold, nos anos 50, nada tinha para oferecer. A rapaziada
costumava juntar-se na bomba de gasolina que ficava ao pé
da casa em madeira e de alpendre da família Springsteen.
Sem dinheiro nem estímulos intelectuais, Bruce
leu três livros na adolescência e comeu pela primeira
vez num restaurante aos 22 anos.
“O rock’nroll mudou a minha vida. Era a voz da América,
a verdadeira América a chegar a tua casa”. Desiludido
com a pequenez de Freehold e a vida cinzenta do pai, Bruce
pôde sonhar pela primeira vez. “Ouvi algo na voz
desses cantores que dizia que havia mais na vida do que aquilo
que o meu velho fazia e do que a vida que eu levava. Continham
uma promessa, a de que qualquer homem tem o direito de viver
a sua vida com alguma decência e dignidade”.
Da mesma forma que odiava o colégio, as suas freiras
e os valores católicos, Bruce tinha
frequentes zangas com o pai, a quem criticava a falta de ambição.
“Às 6h da manhã, todos os dias, via o meu
velho saír, ouvia-o nas traseiras a carregar a bateria
para pôr o carro a andar. Quando fui crescendo, olhava
à minha volta e não conseguia ver como é
que a minha vida poderia ser muito diferente da dele, porque
parecia que tendo nascido num determinado lugar as coisas nunca
poderiam mudar muito... Nunca tive uma foto dele a rir. Tudo
o que conseguia recordar dele era sentado na mesa da cozinha
à noite às escuras, a fumar um cigarro, à
espera que tudo desaparecesse ou coisa parecida...”
Da relação difícil com o pai, nascerão
mais tarde alguns dos seus melhores temas, como “Factory”,
“Independence day” ou “My
father’s house”. Em “Factory”,
vê o pai a atravessar as portas da fábrica “com
a morte nos olhos”, em “Independence day”
despede-se-lhe explicando que não haveria forma da casa
abriga-los aos dois e em “My Father’s house”,
sonha com o regresso à casa paterna onde uma mulher desconhecida
lhe diz que já não vive ninguém ali com
esse nome.
A forma de Bruce se evadir da vida medíocre
e cinzenta de Freehold era fechar-se no quarto a ouvir música,
desde os Beatles ao som negro das Supremes
e Marvin Gaye e ao rithm and blues de Gary
US Bonds e Mitch Ryder. Aos 13 anos,
comprou uma guitarra em segunda mão e aos 16 ouviu dizer
que o grupo local “The Castilles”
precisava de um novo guitarrista. Com os Castilles,
fez a sua primeira aparição pública, começando
a fazer a rota dos clubes, liceus, supermercados e drive-ins
de New Jersey. Chegaram a atravessar o rio e tocar em Greenwich
Village mas quando acabou o liceu, separaram-se. Bart
Haines, o baterista, foi para o Vietnam, para não
mais voltar.
Depois de deixar o liceu e após uma passagem fugaz pela
universidade, Bruce passou a frequentar cada
vez mais os clubes de Asbury Park. Esta, a 70 quilometros de
Nova Iorque, era uma daquelas estâncias decadentes onde
só parava quem já não tinha gasolina para
chegar a Atlantic City. Em Asbury, em 69, Bruce, nessa altura
com uma longa cabeleira, formou os Steel Mill,
que serviriam de embrião à E Street Band.
Foi lá que conheceu “Miami” Steve
Van Zandt e grande parte dos futuros membros da E
Street Band.
Os Steel Mill duraram pouco tempo e nem uma
incursão de três meses à California hippie
de então resultou. Bruce formou então
os Dr Zoom and the Sonic Boom, uma banda efémera
mas que já incluía alguns dos futuros membros
da E Street Band, a que se seguiu a não
menos efémera Bruce Springsteen Band.
Foi nos clubes de Asbury, no “Stone Pony”, “Upstage”
ou “Student Prince”, que Springsteen
foi moldando o seu som. Clarence Clemons, o
saxofonista da E Street Band, recorda a primeira
vez que o conheceu: “Era uma fria e chuvosa noite, chuvia
por demais, eu abri a porta do bar e o vento arrancou a porta
e atirou-a para a rua. Foi como se dissesse: “Aqui estou
eu! Vim para tocar!” Quando começamos a tocar,
foi como se estivessemos estado sempre juntos”.
A carreira profissional de Bruce começou
com a aparição do empresário Mike
Appel, em 1972, que lhe prometeu uma audição
na CBS e o levou a assinar um contrato em cima do capot de um
automóvel. Appel conseguiu que John
Hammond, da CBS, que descobrira Bob Dylan,
ouvisse Bruce. “Cantou como se a sua
vida dependesse disso”, recorda Appel.
Nessa mesma noite, Hammond reservou o palco
do “Gaslight Club” para poder ouvir Bruce
em frente a uma audiência. No dia seguinte, estava na
CBS a gravar 14 canções.
Hammond via em Springsteen
um novo Dylan e tentou vendê-lo como tal mas não
só Springsteen insistia em tocar com
a sua propria banda como o público do começo da
década de 70 se começava a cansar do verdadeiro
Bob Dylan. “Greetings From Asbury
Park”, o seu primeiro album, exibia já
algumas das imagens de marca do trabalho futuro de Springsteen.
Apesar da verbosidade e das canções serem longas,
o disco estava já impregnado do romantismo de rua que
triunfaria no épico “Born To Run”,
dois anos mais tarde. Em “Growin’ Up”,
a canção do album que mais perdurou no reportório
ao vivo do cantor, Bruce declara: “Juro
que descobri a chave para o universo no motor de um velho automovel!”
O Segundo album, a seguir a uma decepcionante tournée
com os Chicago, “The Wild, The
Innocent And The E Street Shuffle”, enfatizou
a poesia de rua do anterior, ou mitificando Asbury em “Sandy”
ou romantizando os gangs de rua, os “little heroes”
ou “romantic young boys” da canção
“Incident on 57th Street”.
Apesar dos elogios da crítica, a CBS estava descontente
com as vendas dos dois albuns. Por isso, quando Jon
Landau, um dos mais prestigiados críticos de
rock escreveu que vira o futuro do rock’nroll e o seu
nome era Bruce Springsteen, a companhia montou
uma gigantesca campanha de marketing que o apresentava como
a salvação do rock’nroll.
A campanha colocou uma pressão enorme sobre os ombros
de Bruce que estava a preparar o terceiro album
e convidou Landau para o ajudar. “Ouçam”,
dizia Springsteen, “a data de lançamento
é um dia. O album é para sempre”.
“Born To Run” não desiludiu
ninguém. A energia e inocência do rock’n
roll apoiava a capacidade narrativa de Bruce,
a sua visão romântica de uma América juvenil
em fuga, herois e heroínas a fugir da cidade em direcção
à estrada, à procura do amor e redenção
em velhos Chevrolets. Desde a abertura cinematográfica,
Mary dançando à porta de casa, o vestido esvoaçando
ao som de “Only the lonely” de Roy Orbinson,
até ao final triunfante, “Thunder Road”
é um clássico. Em “Jungleland”,
os jovens urbanos erguem guitarras como lâminas de barbear
e uma luta de gangs num beco é descrita como um balett.
Em cada canção existia uma promessa de redenção,
mesmo quando como em “Meeting Across The River”,
esta surgia em forma de um negócio de droga.
“Born To Run” atingiu o top ten
rápidamente e Springsteen foi capa em
simultâneo da “Time” e da
“Newsweek”. A reputação
dos seus concertos aumentou de tal forma que celebridades como
Jack Nicholson e Robert De Niro
acorreram a vê-lo. Habituados às vedetas distantes
e cínicas dos anos 70, as audiências rendiam-se
às cavalgadas épicas de Bruce
e a E Street Band.
O cada vez maior envolvimento de Landau na
carreira de Springsteen, mal visto por Mike
Appel, explodiu em 76 quando Bruce
o processou por má gestão. Appel,
por seu lado, accionou judicialmente contra Springsteen
conseguindo que este fosse proibido de gravar. Só em
maio de 77 as duas partes chegariam a acordo. Springsteen
ficava livre para gravar com quem quisesse e quatro dias mais
tarde, ele e Jon Landau entraram em estúdio
para gravar “Darkness On The Edge Of Town”.
Enquanto não pôde gravar, o cantor colocou todas
as suas energias nos concertos, percorrendo a América
de lés a lés. No fim de 78, um concerto seu era
uma maratona rocker de quatro horas e 30 canções.
Bruce não se limitava a cantar canções
suas. Como verdadeiro herdeiro do rock’n roll, cantava
versões suas de canções de Sam
& Dave, Creedence Clearwater Revival,
Buddy Holly, Eddie Cochran,
Dylan, Chuck Berry, Beatles...Cantando
em concerto muitas canções nunca gravadas, Bruce
Springsteen, um compositor prolífico, tornou-se
um dos artistas mais pirateados da história do rock.
Ele tinha tanta consciência disso que uma noite em São
Francisco, no auge do show, gritou: “Piratas, liguem os
vossos gravadores!”
Depois de mais uma gestação difícil—
Springsteen era hiper-selectivo e perfeccionista
ao ponto de exigir alterar a primeira versão da capa—
“Darkness On The Edge Of Town”
saíu em meados de 78. O Bruce idealista
de “Born To Run” transformara-se
num homem mais amargo e resignado e os “Magic Rats”
e “Spanish Johnnys” deram lugar a figuras mais velhas
e mais próximas da realidade como a prostituta Candy
de “Candy’s Room”. O piano
melodioso com que Roy Bittan abria “Jungleland”
três anos antes, deu lugar ao som estridente da guitarra
e o uivo de Bruce em “Streets
Of Fire” soa a um animal ferido perdido nas ruas
da cidade.
A promessa e a esperança continuam presentes mas o esforço
para alcançar a terra prometida é muito maior.
“Em “Darkness”, explica Springsteen,
“já não existe viagem de graça. Queres
ir, tens de pagar. Talvez consigas atingir a terra prometida
mas para o conseguir vais-te ferir. Há esperança
mas é a esperança da sobrevivência”.
Continua a existir redenção mas tem um preço.
“If you want it, you take it, you pay the price”,
canta.
Na sequência de “Darkness”,
Bruce e a cada vez mais oleada E Street
Band voltaram à estrada. Ao contrário
das grandes bandas da altura, eles íam a toda a América,
cantando durante seis meses em 37 Estados, uma média
de três horas por noite e viajando de autocarro. Bruce
queria levar a sua música às pessoas que afinal
compunham as suas personagens. “Esses putos aí
fora, é o seu dinheiro e é uma noite. Não
te voltarão a ver durante um ano. Por isso não
os posso desiludir”.
Continuando a fugir aos grandes auditórios, Bruce
tentava criar um sentimento de partilha entre si e a audiência,
intervalando as canções com longos monólogos
sobre o seu passado. Quando um jornalista o abordou no backstage
a pedir uma entrevista, replicou: “ Então mas eu
não tenho estado a falar para si há quatro horas?”
A aparição de Springsteen nos
concertos contra a energia nuclear, “No Nukes”,
no Madison Square Garden, em Nova Iorque, ficou imortalizada
em filme. Os fãs acorriam ao cinema para ver uma pequena
parte da fita em que se via Springsteen a caír ao chão
de proposito e a ser levantado pelos membros da E Street
Band ou de guitarra em punho a tocar em cima do piano
de Roy Bittan até escorregar de joelhos
pelo palco. A velha guarda presente, dos Crosby Still
and Nash a Carly Simon, era mostrada
em estado de choque nos bastidores a ouvir o público
a chamar “Bruuuuce, Bruuuuce!” Definitivamente,
ele roubara-lhes o show!
Em Abril de 79, Springsteen entrou em estúdio
para gravar aquele que é provavelmente o seu melhor trabalho,
o duplo “The River”, 20 canções
que vão da melancolia de “Wreck on the
highway” e “Independence day”
à exuberância rocker de “Cadillac
Ranch”, “Ramrod”,
“Hungry heart”. No album, que saíu
em Outubro de 80, era como se Bruce, que atingira
os 30 anos, tivesse finalmente aprendido a fazer compromissos.
“Não se pode ser só sonhador”, disse
ao New York Times, “Isso pode tornar-se uma ilusão
que se transforma em desilusão. Ter sonhos é provavelmente
o mais importante das nossas vidas mas deixá-los transformar-se
em desilusões, wow, isso é veneno”.
As personagens continuam obsessivamente a tentar escapar ao
sistema mas existe nelas uma resignação que não
existia dantes. “Eu ía ser o teu Romeu e tu ías
ser a minha Julieta mas hoje em dia já não esperas
por Romeus, esperas pelo cheque da segurança social”,
canta em “Point Blanck”. Na canção
“Wreck on the highway” passa por
nós a imagem em movimento de um homem a morrer junto
ao carro acidentado. “Eu fiquei a ver enquanto a ambulância
o pegou e eu pensei numa namorada ou numa jovem esposa e um
polícia batendo à porta a meio da noite para lhe
dizer “o teu querido” morreu num desastre de autoestrada”.
“The River” foi idolatrado pela
maioria da crítica mas alguns acusaram-no de machismo
ao tratar sempre as mulheres por “baby”, de sentimentalismo
e mostravam-se sobretudo fartos do seu imaginário de
carros, estradas e promessas a cumprir no fim da cidade. Na
realidade, ao escrever sobre a América, Springsteen
tinha de a descrever assim, uma sociedade em permanente movimento
e onde a estrada e o automóvel são passaportes
para a evasão.
Sprigsteen partiu para mais uma gloriosa tournée,
realizando 132 concertos em 30 países durante 12 meses.
Passou todo o ano de 82 na penumbra tocando em “jam sessions”,
ajudando músicos seus amigos e viajando durante largos
meses anónimanente pela América de carrinha. Queria
fugir de alguma maneira à sombra do triunfo e ao estatuto
de grande rocker e poder ser ele mesmo.
A obra que saíu desse período de retiro e reflexão,
“Nebraska”, dez canções
gravadas em casa num gravador de quatro pistas é como
que um retrato a preto e branco de uma América atingida
pela depressão. Johnny 99, uma das personagens
determinantes, é uma figura a quem o desemprego retirou
a dignidade pessoal e por isso cometeu um crime. Mas mesmo nos
momentos mais negros e tristes, Springsteen
transmite esperança e crença, como em “Reason
too believe” ou nos versos de Atlantic
City, “bem, eu acho que tudo morre, querida,
isso é verdade, mas talvez tudo o que morre um dia regresse”.
As vendas fracas de “Nebraska”
seriam compensadas pela explosão chamada “Born
In The USA”, em Junho de 84. Este é um
clássico, o rock’n roll no seu máximo, a
magnificente bateria de Max Weinberg abrindo
caminho. Bruce faz algumas concessões
ao pop, sobretudo em “Dancing in the dark”
ou “Cover me” mas no resto apresenta-se
como um rocker devastador. Já vai longe o romantismo
adolescente de “Born To Run”, agora
o sonho americano terminou em desilusão e sofrimento,
o irmão mais velho morto em Khe Sahn. “I’m
10 years burning down the road/ Nowhere to run, ain’t
nowhere to go”.
O heroi já não estende a mão à namorada
para fugirem daquela pequena cidade juntos. Senta-se ao balcão
de um bar, recordando as velhas glórias e bebendo uma
cerveja. “Born In USA” seria um
pouco como que o último verdadeiro album de rock’n
roll e Springsteen o seu último heroi.
O enorme sucesso de “Born In USA”
revelar-se-ia uma faca de dois gumes para Bruce Springsteen.
Reagan e a direita conservadora tentaram tirar
proveito da faceta mais nacionalista da mensagem e o casamento
com a modelo Julliane Philips numa igreja católica
do Oregon, em Maio de 85, redundaria num fracasso. Por outro
lado, agora que vendia discos e enchia estádios em todo
o mundo, Springsteen atingira o cume da montanha.
Ele, que sempre presara a integridade, honestidade e sinceridade,
continuaria a cantar os oprimidos, agora que era fabulosamente
rico? Manter-se-ia a representar o papel de heroi americano
por quanto mais tempo? Que tipo de disco poderia agora fazer?
Jon Landau propôs-lhe que fizesse finalmente
um album ao vivo. “Se não o fizermos agora, quando
é que o vamos fazer? É impossível imaginar
um momento mais oportuno do que este”. Springsteen
sempre se mostrara renitente por achar que seria impossível
reproduzir em disco o ambiente dos shows mas acabou por aceder.
Ele e Landau ouviram dez anos de gravações
até chegarem a uma selecção final. Uma
caixa de cinco lps abarcando a carreira de Springsteen
ao vivo saíu em Novembro de 86. Apesar de extensa, revela-se
incompleta e esquece canções como “Johny
Bye Bye”, dedicada a Elvis.
A forma de mais uma vez Bruce Springsteen fugir
ao previsível foi gravar um album de canções
de amor, “Tunnel Of Love”. Pela
primeira vez, os membros da E Street Band não
surgiam em conjunto na gravação das canções
e era possível observar nas letras os problemas que o
matrimónio idílico com Juliane Philips
atravessava. Em “Ain’t got you”,
queixa-se de ser o homem mais rico de mundo mas não ter
o mais importante, o amor e em “Brilliant Disguise”
canta: “Não consigo compreender o que uma mulher
como tu está a fazer comigo”.
Em Maio de 88, em plena tournée “Tunnel
Of Love”, o jornal sensacionalista britânico
“Sun” anuncia a separação
de Juliane e Bruce e em Junho,
as mesmas páginas publicam fotos de Bruce
abraçado a Patti Scialfa. A acrescer
a este problema, dois ex-roadies acusaram Bruce
de despedimento injusto o que chocou com a sua habitual imagem
humanitária. Bruce terminou o ano de
88 numa gigantesca tournée mundial de apoio à
Amnistia Internacional juntamente com Peter Gabriel
e Sting e retirou-se.
O fracasso do casamento consubstanciado no divórcio em
Maio de 89, deixou Springsteen numa grave crise
de confusão e depressão que o levou a sujeitar-se
a uma terapia psiquiátrica. No fim do ano, um mês
depois de ter celebrado os seus 40 anos juntamente com a banda,
Bruce telefonou a cada um membro da E
Street Band a anunciar o fim do grupo. Avesso à
rotina e ávido de tocar com outros músicos, decidira
separar-se dos velhos amigos. “Ele está à
procura de algo”, explicou na altura Nils Lofgren,
“tem direito de estar confuso. Todos temos de crescer
e evoluir”.
Ao
mesmo tempo que se afastava da E Street Band,
Springsteen cimentava a relação
com Patti Scialfa. Em Janeiro de 90 foi anunciado
que esperavam o primeiro filho e em Abril mudaram-se para uma
luxuosa mansão em Beverly Hills comprada por 14 milhões
de dolares. Bruce estava diferente. Longe do
absorvente perfeccionismo de outrora, passou a fazer tudo com
mais calma. Em estúdio, onde entrou em meados do ano,
gravava um punhado de temas, descansava uns dias ou mesmo semanas
e voltava ao estúdio só quando sentia vontade
de trabalhar.
Os
próximos tempos foram de felicidade conjugal e reconciliação
consigo próprio. A Julho de 90 nascia Evan James,
o primeiro filho e em finais de 91, Jessica Raes.
Quando em Março de 92, depois de quase cinco anos de
silêncio, Bruce lançou dois albuns,
“Human Touch” e “Lucky
Town”, entre a crítica e os fãs
ficou uma sensação de semi-desapontamento. São
bons discos mas talvez os primeiros de Bruce
que não são fundamentais. Algumas das melhores
canções, “Better days”
e “Lucky Town”, são optimistas.
Mostram um homem satisfeito em ter uma mulher a seu lado e em
“If I should fall behind”, comprometem-se
a ajudar-se um ao outro caso algo de mau aconteça.
Agora,
passado o impacto de “Streets of Filadelphia”,
reina de novo a expectactiva sobre o que o imprevisível
Bruce Springsteen nos poderá trazer
de novo. A sua reunião com a E Street Band
será para levar a sério? Esperar-nos-á
no fim do ano mais um album de rock’n roll? Dave
Marsh, seu biógrafo, tem consciência de
que a fasquia para Bruce será sempre
muito elevada.
“Desde
que Landau escreveu que vira o futuro do rock’n
roll, sempre que as pessoas julgarem Springsteen
não estará em questão se é bom ou
mau, mas sim se é fantástico ou não.
Nuno Ferreira |
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Incluídos neste lançamento de sucessos, estão
também 5 temas inéditos: "Streets
Of Philadelphia", "Secret Garden",
"Murder Incorporated", "Blood
Brothers" e "This Hard Land".
: AGRADECIMENTOS
Nuno Ferreira percorre a carreira de Springsteen
até ao lançamento do primeiro registo que inclui
os grandes sucessos do Boss.
Texto também publicado no jornal
O Público em 1995.
Nuno Ferreira é também o autor
do blog Estradas
Perdidas.
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