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GREATEST HITS



© 1995
 

: CURIOSIDADES


. O lançamento deste álbum serviu também como pretexto para a reunião da E Street Band.

. Gravam alguns temas em estúdio, situação que não acontecia desde o registo do álbum "Born in the U.S.A." em 1984.

. Apesar desta reunião da banda, só voltariam a estar de novo juntos em 1999, quando partem para uma digressão mundial, oportunamente apelidada: The Reunion Tour.
 

DISCOGRAFIA

1973 - Greetings From Asbury Park, NJ
1973 - The Wild, The Innocent & The & Street Shuffle
1975 - Born to Run
1978 - Darkness on the Edge of Town
1980 - The River
1982 - Nebraska
1984 - Born in the U.S.A.
1986 - Live/1975-85
1987 - Tunnel of Love
1988 - Chimes of Freedom
1992 - Human Touch
1992 - Lucky Town
1993 - In Concert, MTV Plugged
1995 - Greatest Hits
1995 - The Ghost of Tom Joad
1998 - Tracks
1999 - 18 Tracks
2001 - Live in New York City
2002 - The Rising
2003 - The Essential Bruce Springsteen
2005 - Devils & Dust
2005 - Hammersmith Odeon London '75
2006 - We Shall Overcome The Seeger Sessions
2006 - We Shall Overcome The Seeger Sessions - American Land Edition
2007 - Live in Dublin
2007 - Magic
2009 - Working on a Dream

GREATEST HITS


Greatest Hits

A VOZ DOS FÃS


Bruce Springsteen regressa às lides discográficas e à gravação com a famosa E Street Band, com quem atingiu os picos da fama e com a qual não gravava desde “Born In USA”. Enquanto isso, tudo indica que a cerimónia de entrega dos “Grammys”, na quarta-feira, reservará um lugar de destaque a si e à canção “Streets Of Filadelphia”.

Quando amanhã for posto à venda o novo album de Bruce Springsteen, os cépticos encolherão os braços. Trata-se de um “Greatest Hits” com apenas duas canções inéditas, “Secret garden” e “This hard land”. A última, inclusivamente, é bem conhecida dos que assistiram ao seu concerto de 93 em Lisboa ou compraram as gravações piratas. O que é verdadeiramente importante neste regresso é que pela primeira vez desde 1984, Bruce gravou os dois temas com a E Street Band que dissolvera de forma assaz lacónica em Novembro de 1989.

Roy Bittan, Clarence Clemons, Danny Federici, Nils Lofgren, Patti Scialfa, Garry Tallent, Max Weinberg e o amigo de sempre Steve Van Zandt responderam à chamada, na New York’s Hit Factory. Bruce prepara-se para comparecer na quarta-feira na cerimónia de entrega dos “Grammys”, prémios da indústria musical, para os quais foi nomeada “Streets Of Filadelphia”. Aos 45 anos, estará a chegar ao fim o ciclo de retiro e algum acomodamento iniciado em 89? Quererão estas novas gravações indiciar que o novo album de originais contará de novo com a que já foi considerada em tempos a melhor banda ao vivo de rock’roll?

Springsteen afirmou-se, no seio de uma cultura popular americana, pujante e dominadora durante o século XX, como a voz da América profunda. Tal como John Ford ou Martin Scorsese, no cinema, Steinbeck na literatura ou Edward Hopper, na pintura, a sua temática é o grande continente. Em mais de 20 anos de canções, tem cantado o sonho americano à medida do seu proprio sonho de rocker que aos 8 anos viu Elvis no Ed Sullivan Show e quis que lhe comprassem uma guitarra.

Com Bruce Springsteen e os seus épicos concertos de três horas e meia, o público num enorme e sussurrante “Bruuuuce, Bruuuuce”, temos a América cantada sob a energia e a intensidade do melhor rock’n roll. Herdou a vitalidade em palco dos primeiros rockers, incorporou a rebeldia contestatária de Woody Guthrie e moldou tudo à sua propria imagem.

Este é, no entanto, um rocker singular. Provavelmente pela primeira vez na história do rock’nroll, a estrela não envereda pela auto-destruição depois de um período de grande criatividade nem continua de forma patética a tentar perpetuar uma juventude que já perdeu. Ao longo de 22 anos, ao envelhecimento de Springsteen corresponde uma evolução gradual das suas letras, do idealismo juvenil de “Born To Run” ao desencanto amargo de “Darkness On The Edge Of Town”, da dúvida e inquietação amorosa de “Tunel Of Love” até ao optimismo de pai de família de “Lucky Town”.

A viagem começa em Freehold, New Jersey, a 23 de Setembro de 1949. Douglas, o pai de Bruce, de origem irlandesa, tenta ganhar a vida assumindo diversos empregos, de jardineiro a guarda prisional, de motorista a operário fabril. Adele, a mãe, é de origem italiana e ambos fazem questão que Bruce receba uma educação católica.

Freehold, nos anos 50, nada tinha para oferecer. A rapaziada costumava juntar-se na bomba de gasolina que ficava ao pé da casa em madeira e de alpendre da família Springsteen. Sem dinheiro nem estímulos intelectuais, Bruce leu três livros na adolescência e comeu pela primeira vez num restaurante aos 22 anos.

“O rock’nroll mudou a minha vida. Era a voz da América, a verdadeira América a chegar a tua casa”. Desiludido com a pequenez de Freehold e a vida cinzenta do pai, Bruce pôde sonhar pela primeira vez. “Ouvi algo na voz desses cantores que dizia que havia mais na vida do que aquilo que o meu velho fazia e do que a vida que eu levava. Continham uma promessa, a de que qualquer homem tem o direito de viver a sua vida com alguma decência e dignidade”.

Da mesma forma que odiava o colégio, as suas freiras e os valores católicos, Bruce tinha frequentes zangas com o pai, a quem criticava a falta de ambição. “Às 6h da manhã, todos os dias, via o meu velho saír, ouvia-o nas traseiras a carregar a bateria para pôr o carro a andar. Quando fui crescendo, olhava à minha volta e não conseguia ver como é que a minha vida poderia ser muito diferente da dele, porque parecia que tendo nascido num determinado lugar as coisas nunca poderiam mudar muito... Nunca tive uma foto dele a rir. Tudo o que conseguia recordar dele era sentado na mesa da cozinha à noite às escuras, a fumar um cigarro, à espera que tudo desaparecesse ou coisa parecida...”

Da relação difícil com o pai, nascerão mais tarde alguns dos seus melhores temas, como “Factory”, “Independence day” ou “My father’s house”. Em “Factory”, vê o pai a atravessar as portas da fábrica “com a morte nos olhos”, em “Independence day” despede-se-lhe explicando que não haveria forma da casa abriga-los aos dois e em “My Father’s house”, sonha com o regresso à casa paterna onde uma mulher desconhecida lhe diz que já não vive ninguém ali com esse nome.

A forma de Bruce se evadir da vida medíocre e cinzenta de Freehold era fechar-se no quarto a ouvir música, desde os Beatles ao som negro das Supremes e Marvin Gaye e ao rithm and blues de Gary US Bonds e Mitch Ryder. Aos 13 anos, comprou uma guitarra em segunda mão e aos 16 ouviu dizer que o grupo local “The Castilles” precisava de um novo guitarrista. Com os Castilles, fez a sua primeira aparição pública, começando a fazer a rota dos clubes, liceus, supermercados e drive-ins de New Jersey. Chegaram a atravessar o rio e tocar em Greenwich Village mas quando acabou o liceu, separaram-se. Bart Haines, o baterista, foi para o Vietnam, para não mais voltar.

Depois de deixar o liceu e após uma passagem fugaz pela universidade, Bruce passou a frequentar cada vez mais os clubes de Asbury Park. Esta, a 70 quilometros de Nova Iorque, era uma daquelas estâncias decadentes onde só parava quem já não tinha gasolina para chegar a Atlantic City. Em Asbury, em 69, Bruce, nessa altura com uma longa cabeleira, formou os Steel Mill, que serviriam de embrião à E Street Band. Foi lá que conheceu “Miami” Steve Van Zandt e grande parte dos futuros membros da E Street Band.

Os Steel Mill duraram pouco tempo e nem uma incursão de três meses à California hippie de então resultou. Bruce formou então os Dr Zoom and the Sonic Boom, uma banda efémera mas que já incluía alguns dos futuros membros da E Street Band, a que se seguiu a não menos efémera Bruce Springsteen Band.

Foi nos clubes de Asbury, no “Stone Pony”, “Upstage” ou “Student Prince”, que Springsteen foi moldando o seu som. Clarence Clemons, o saxofonista da E Street Band, recorda a primeira vez que o conheceu: “Era uma fria e chuvosa noite, chuvia por demais, eu abri a porta do bar e o vento arrancou a porta e atirou-a para a rua. Foi como se dissesse: “Aqui estou eu! Vim para tocar!” Quando começamos a tocar, foi como se estivessemos estado sempre juntos”.

A carreira profissional de Bruce começou com a aparição do empresário Mike Appel, em 1972, que lhe prometeu uma audição na CBS e o levou a assinar um contrato em cima do capot de um automóvel. Appel conseguiu que John Hammond, da CBS, que descobrira Bob Dylan, ouvisse Bruce. “Cantou como se a sua vida dependesse disso”, recorda Appel. Nessa mesma noite, Hammond reservou o palco do “Gaslight Club” para poder ouvir Bruce em frente a uma audiência. No dia seguinte, estava na CBS a gravar 14 canções.

Hammond via em Springsteen um novo Dylan e tentou vendê-lo como tal mas não só Springsteen insistia em tocar com a sua propria banda como o público do começo da década de 70 se começava a cansar do verdadeiro Bob Dylan. “Greetings From Asbury Park”, o seu primeiro album, exibia já algumas das imagens de marca do trabalho futuro de Springsteen. Apesar da verbosidade e das canções serem longas, o disco estava já impregnado do romantismo de rua que triunfaria no épico “Born To Run”, dois anos mais tarde. Em “Growin’ Up”, a canção do album que mais perdurou no reportório ao vivo do cantor, Bruce declara: “Juro que descobri a chave para o universo no motor de um velho automovel!”

O Segundo album, a seguir a uma decepcionante tournée com os Chicago, “The Wild, The Innocent And The E Street Shuffle”, enfatizou a poesia de rua do anterior, ou mitificando Asbury em “Sandy” ou romantizando os gangs de rua, os “little heroes” ou “romantic young boys” da canção “Incident on 57th Street”.

Apesar dos elogios da crítica, a CBS estava descontente com as vendas dos dois albuns. Por isso, quando Jon Landau, um dos mais prestigiados críticos de rock escreveu que vira o futuro do rock’nroll e o seu nome era Bruce Springsteen, a companhia montou uma gigantesca campanha de marketing que o apresentava como a salvação do rock’nroll.

A campanha colocou uma pressão enorme sobre os ombros de Bruce que estava a preparar o terceiro album e convidou Landau para o ajudar. “Ouçam”, dizia Springsteen, “a data de lançamento é um dia. O album é para sempre”.

Born To Run” não desiludiu ninguém. A energia e inocência do rock’n roll apoiava a capacidade narrativa de Bruce, a sua visão romântica de uma América juvenil em fuga, herois e heroínas a fugir da cidade em direcção à estrada, à procura do amor e redenção em velhos Chevrolets. Desde a abertura cinematográfica, Mary dançando à porta de casa, o vestido esvoaçando ao som de “Only the lonely” de Roy Orbinson, até ao final triunfante, “Thunder Road” é um clássico. Em “Jungleland”, os jovens urbanos erguem guitarras como lâminas de barbear e uma luta de gangs num beco é descrita como um balett. Em cada canção existia uma promessa de redenção, mesmo quando como em “Meeting Across The River”, esta surgia em forma de um negócio de droga.

Born To Run” atingiu o top ten rápidamente e Springsteen foi capa em simultâneo da “Time” e da “Newsweek”. A reputação dos seus concertos aumentou de tal forma que celebridades como Jack Nicholson e Robert De Niro acorreram a vê-lo. Habituados às vedetas distantes e cínicas dos anos 70, as audiências rendiam-se às cavalgadas épicas de Bruce e a E Street Band.

O cada vez maior envolvimento de Landau na carreira de Springsteen, mal visto por Mike Appel, explodiu em 76 quando Bruce o processou por má gestão. Appel, por seu lado, accionou judicialmente contra Springsteen conseguindo que este fosse proibido de gravar. Só em maio de 77 as duas partes chegariam a acordo. Springsteen ficava livre para gravar com quem quisesse e quatro dias mais tarde, ele e Jon Landau entraram em estúdio para gravar “Darkness On The Edge Of Town”.

Enquanto não pôde gravar, o cantor colocou todas as suas energias nos concertos, percorrendo a América de lés a lés. No fim de 78, um concerto seu era uma maratona rocker de quatro horas e 30 canções. Bruce não se limitava a cantar canções suas. Como verdadeiro herdeiro do rock’n roll, cantava versões suas de canções de Sam & Dave, Creedence Clearwater Revival, Buddy Holly, Eddie Cochran, Dylan, Chuck Berry, Beatles...Cantando em concerto muitas canções nunca gravadas, Bruce Springsteen, um compositor prolífico, tornou-se um dos artistas mais pirateados da história do rock. Ele tinha tanta consciência disso que uma noite em São Francisco, no auge do show, gritou: “Piratas, liguem os vossos gravadores!”

Depois de mais uma gestação difícil— Springsteen era hiper-selectivo e perfeccionista ao ponto de exigir alterar a primeira versão da capa— “Darkness On The Edge Of Town” saíu em meados de 78. O Bruce idealista de “Born To Run” transformara-se num homem mais amargo e resignado e os “Magic Rats” e “Spanish Johnnys” deram lugar a figuras mais velhas e mais próximas da realidade como a prostituta Candy de “Candy’s Room”. O piano melodioso com que Roy Bittan abria “Jungleland” três anos antes, deu lugar ao som estridente da guitarra e o uivo de Bruce em “Streets Of Fire” soa a um animal ferido perdido nas ruas da cidade.

A promessa e a esperança continuam presentes mas o esforço para alcançar a terra prometida é muito maior. “Em “Darkness”, explica Springsteen, “já não existe viagem de graça. Queres ir, tens de pagar. Talvez consigas atingir a terra prometida mas para o conseguir vais-te ferir. Há esperança mas é a esperança da sobrevivência”. Continua a existir redenção mas tem um preço. “If you want it, you take it, you pay the price”, canta.

Na sequência de “Darkness”, Bruce e a cada vez mais oleada E Street Band voltaram à estrada. Ao contrário das grandes bandas da altura, eles íam a toda a América, cantando durante seis meses em 37 Estados, uma média de três horas por noite e viajando de autocarro. Bruce queria levar a sua música às pessoas que afinal compunham as suas personagens. “Esses putos aí fora, é o seu dinheiro e é uma noite. Não te voltarão a ver durante um ano. Por isso não os posso desiludir”.

Continuando a fugir aos grandes auditórios, Bruce tentava criar um sentimento de partilha entre si e a audiência, intervalando as canções com longos monólogos sobre o seu passado. Quando um jornalista o abordou no backstage a pedir uma entrevista, replicou: “ Então mas eu não tenho estado a falar para si há quatro horas?”

A aparição de Springsteen nos concertos contra a energia nuclear, “No Nukes”, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, ficou imortalizada em filme. Os fãs acorriam ao cinema para ver uma pequena parte da fita em que se via Springsteen a caír ao chão de proposito e a ser levantado pelos membros da E Street Band ou de guitarra em punho a tocar em cima do piano de Roy Bittan até escorregar de joelhos pelo palco. A velha guarda presente, dos Crosby Still and Nash a Carly Simon, era mostrada em estado de choque nos bastidores a ouvir o público a chamar “Bruuuuce, Bruuuuce!” Definitivamente, ele roubara-lhes o show!

Em Abril de 79, Springsteen entrou em estúdio para gravar aquele que é provavelmente o seu melhor trabalho, o duplo “The River”, 20 canções que vão da melancolia de “Wreck on the highway” e “Independence day” à exuberância rocker de “Cadillac Ranch”, “Ramrod”, “Hungry heart”. No album, que saíu em Outubro de 80, era como se Bruce, que atingira os 30 anos, tivesse finalmente aprendido a fazer compromissos. “Não se pode ser só sonhador”, disse ao New York Times, “Isso pode tornar-se uma ilusão que se transforma em desilusão. Ter sonhos é provavelmente o mais importante das nossas vidas mas deixá-los transformar-se em desilusões, wow, isso é veneno”.

As personagens continuam obsessivamente a tentar escapar ao sistema mas existe nelas uma resignação que não existia dantes. “Eu ía ser o teu Romeu e tu ías ser a minha Julieta mas hoje em dia já não esperas por Romeus, esperas pelo cheque da segurança social”, canta em “Point Blanck”. Na canção “Wreck on the highway” passa por nós a imagem em movimento de um homem a morrer junto ao carro acidentado. “Eu fiquei a ver enquanto a ambulância o pegou e eu pensei numa namorada ou numa jovem esposa e um polícia batendo à porta a meio da noite para lhe dizer “o teu querido” morreu num desastre de autoestrada”.

The River” foi idolatrado pela maioria da crítica mas alguns acusaram-no de machismo ao tratar sempre as mulheres por “baby”, de sentimentalismo e mostravam-se sobretudo fartos do seu imaginário de carros, estradas e promessas a cumprir no fim da cidade. Na realidade, ao escrever sobre a América, Springsteen tinha de a descrever assim, uma sociedade em permanente movimento e onde a estrada e o automóvel são passaportes para a evasão.

Sprigsteen partiu para mais uma gloriosa tournée, realizando 132 concertos em 30 países durante 12 meses. Passou todo o ano de 82 na penumbra tocando em “jam sessions”, ajudando músicos seus amigos e viajando durante largos meses anónimanente pela América de carrinha. Queria fugir de alguma maneira à sombra do triunfo e ao estatuto de grande rocker e poder ser ele mesmo.

A obra que saíu desse período de retiro e reflexão, “Nebraska”, dez canções gravadas em casa num gravador de quatro pistas é como que um retrato a preto e branco de uma América atingida pela depressão. Johnny 99, uma das personagens determinantes, é uma figura a quem o desemprego retirou a dignidade pessoal e por isso cometeu um crime. Mas mesmo nos momentos mais negros e tristes, Springsteen transmite esperança e crença, como em “Reason too believe” ou nos versos de Atlantic City, “bem, eu acho que tudo morre, querida, isso é verdade, mas talvez tudo o que morre um dia regresse”.

As vendas fracas de “Nebraska” seriam compensadas pela explosão chamada “Born In The USA”, em Junho de 84. Este é um clássico, o rock’n roll no seu máximo, a magnificente bateria de Max Weinberg abrindo caminho. Bruce faz algumas concessões ao pop, sobretudo em “Dancing in the dark” ou “Cover me” mas no resto apresenta-se como um rocker devastador. Já vai longe o romantismo adolescente de “Born To Run”, agora o sonho americano terminou em desilusão e sofrimento, o irmão mais velho morto em Khe Sahn. “I’m 10 years burning down the road/ Nowhere to run, ain’t nowhere to go”.

O heroi já não estende a mão à namorada para fugirem daquela pequena cidade juntos. Senta-se ao balcão de um bar, recordando as velhas glórias e bebendo uma cerveja. “Born In USA” seria um pouco como que o último verdadeiro album de rock’n roll e Springsteen o seu último heroi.

O enorme sucesso de “Born In USA” revelar-se-ia uma faca de dois gumes para Bruce Springsteen. Reagan e a direita conservadora tentaram tirar proveito da faceta mais nacionalista da mensagem e o casamento com a modelo Julliane Philips numa igreja católica do Oregon, em Maio de 85, redundaria num fracasso. Por outro lado, agora que vendia discos e enchia estádios em todo o mundo, Springsteen atingira o cume da montanha. Ele, que sempre presara a integridade, honestidade e sinceridade, continuaria a cantar os oprimidos, agora que era fabulosamente rico? Manter-se-ia a representar o papel de heroi americano por quanto mais tempo? Que tipo de disco poderia agora fazer?

Jon Landau propôs-lhe que fizesse finalmente um album ao vivo. “Se não o fizermos agora, quando é que o vamos fazer? É impossível imaginar um momento mais oportuno do que este”. Springsteen sempre se mostrara renitente por achar que seria impossível reproduzir em disco o ambiente dos shows mas acabou por aceder. Ele e Landau ouviram dez anos de gravações até chegarem a uma selecção final. Uma caixa de cinco lps abarcando a carreira de Springsteen ao vivo saíu em Novembro de 86. Apesar de extensa, revela-se incompleta e esquece canções como “Johny Bye Bye”, dedicada a Elvis.

A forma de mais uma vez Bruce Springsteen fugir ao previsível foi gravar um album de canções de amor, “Tunnel Of Love”. Pela primeira vez, os membros da E Street Band não surgiam em conjunto na gravação das canções e era possível observar nas letras os problemas que o matrimónio idílico com Juliane Philips atravessava. Em “Ain’t got you”, queixa-se de ser o homem mais rico de mundo mas não ter o mais importante, o amor e em “Brilliant Disguise” canta: “Não consigo compreender o que uma mulher como tu está a fazer comigo”.

Em Maio de 88, em plena tournée “Tunnel Of Love”, o jornal sensacionalista britânico “Sun” anuncia a separação de Juliane e Bruce e em Junho, as mesmas páginas publicam fotos de Bruce abraçado a Patti Scialfa. A acrescer a este problema, dois ex-roadies acusaram Bruce de despedimento injusto o que chocou com a sua habitual imagem humanitária. Bruce terminou o ano de 88 numa gigantesca tournée mundial de apoio à Amnistia Internacional juntamente com Peter Gabriel e Sting e retirou-se.

O fracasso do casamento consubstanciado no divórcio em Maio de 89, deixou Springsteen numa grave crise de confusão e depressão que o levou a sujeitar-se a uma terapia psiquiátrica. No fim do ano, um mês depois de ter celebrado os seus 40 anos juntamente com a banda, Bruce telefonou a cada um membro da E Street Band a anunciar o fim do grupo. Avesso à rotina e ávido de tocar com outros músicos, decidira separar-se dos velhos amigos. “Ele está à procura de algo”, explicou na altura Nils Lofgren, “tem direito de estar confuso. Todos temos de crescer e evoluir”.

Ao mesmo tempo que se afastava da E Street Band, Springsteen cimentava a relação com Patti Scialfa. Em Janeiro de 90 foi anunciado que esperavam o primeiro filho e em Abril mudaram-se para uma luxuosa mansão em Beverly Hills comprada por 14 milhões de dolares. Bruce estava diferente. Longe do absorvente perfeccionismo de outrora, passou a fazer tudo com mais calma. Em estúdio, onde entrou em meados do ano, gravava um punhado de temas, descansava uns dias ou mesmo semanas e voltava ao estúdio só quando sentia vontade de trabalhar.

Os próximos tempos foram de felicidade conjugal e reconciliação consigo próprio. A Julho de 90 nascia Evan James, o primeiro filho e em finais de 91, Jessica Raes. Quando em Março de 92, depois de quase cinco anos de silêncio, Bruce lançou dois albuns, “Human Touch” e “Lucky Town”, entre a crítica e os fãs ficou uma sensação de semi-desapontamento. São bons discos mas talvez os primeiros de Bruce que não são fundamentais. Algumas das melhores canções, “Better days” e “Lucky Town”, são optimistas. Mostram um homem satisfeito em ter uma mulher a seu lado e em “If I should fall behind”, comprometem-se a ajudar-se um ao outro caso algo de mau aconteça.

Agora, passado o impacto de “Streets of Filadelphia”, reina de novo a expectactiva sobre o que o imprevisível Bruce Springsteen nos poderá trazer de novo. A sua reunião com a E Street Band será para levar a sério? Esperar-nos-á no fim do ano mais um album de rock’n roll? Dave Marsh, seu biógrafo, tem consciência de que a fasquia para Bruce será sempre muito elevada.

“Desde que Landau escreveu que vira o futuro do rock’n roll, sempre que as pessoas julgarem Springsteen não estará em questão se é bom ou mau, mas sim se é fantástico ou não.

Nuno Ferreira
 

Incluídos neste lançamento de sucessos, estão também 5 temas inéditos:
"Streets Of Philadelphia", "Secret Garden", "Murder Incorporated", "Blood Brothers" e "This Hard Land".



: AGRADECIMENTOS


Nuno Ferreira
percorre a carreira de Springsteen até ao lançamento do primeiro registo que inclui os grandes sucessos do Boss.

Texto também publicado no jornal
O Público em 1995.

Nuno Ferreira é também o autor do blog Estradas Perdidas.


 

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