DISCOGRAFIA
WE
SHALL OVERCOME: THE SEEGER SESSIONS
A VOZ DOS FÃS
O
Furacão Katrina passou por New Jersey
O novo álbum de Bruce Springsteen recolhe
temas tradicionais da música popular norte-americana
e transforma-os numa festa à New Orleans. Dir-se-ia que
o Furacão Katrina passou por New Jersey.
Com “We Shall Overcome-The Seeger Sessions”,
Bruce Springsteen consegue transformar numa festa exultante
aquilo que poderia ser apenas mais um excelente mas melancólico
disco acústico. Os temas do álbum já eram
conhecidas na versão despida e folk de Pete Seeger
mas o que Springsteen faz é muito mais do que as reproduzir
de novo em jeito folk. Ele junta um grupo de músicos
brilhantes e faz de cada tema tradicional um pedaço de
uma festa. Chamar apenas disco folk a “We Shall Overcome”
é ignorar a revolução que Springsteen produz
ao reinventar e repintar cada canção.
Old Dan Tucker, por exemplo, começa
com um banjo muito bluegrass mas a entrada da banda em acção
introduz-nos imediatamente a transformação emprendida
pelo Boss. O cantar de Bruce é rasgado
e nasalado e portanto country/bluegrass/ folk mas o acompanhamento
lembra uma jam session em New Orleans, as trompetes dos Dexy
Midnight Runners. A batida é mantida pelo contrabaixo
mas aquelas trompetes mariachi inflamam tudo juntamente com
o coro. É como se estivéssemos num bar em madeira
algures na Irlanda e todos a cantar e a bater com o pé
no soalho.
Jesse James abre com a guitarra acústica
e um cantar à Christy Moore. Há
muito de Irlanda e de irlandês na forma como é
iniciado o tema mas mais uma vez o Boss dá a volta ao
texto, desta vez com a introdução dos acordeons
que tanto nos remetem para o cajun da Louisianna como o tejano
e conjunto da fronteira com o México. O acordeon parece
tocado pelo grande mestre do tex-mex Flaco Jimenez
e as trompetes parecem saídas de New Orleans. Brilhante
a forma como consegue, na festa final em que Jesse James se
transforma, conciliar instrumentos que dir-se-iam inconciliáveis:
banjo, trompetes, acordeon.
Mrs McGrath abre uma janela sobre a Irlanda,
sobretudo mal soam os violinos. O facto de se tratar de uma
velha balada anti-guerra será interpretado para dizer
que se trata de uma mensagem politizada. Bruce Springsteen introduz-lhe
dramatismo utilizando o piano.
O Mary Don’ You Weep começa e
termina com um violino cigano maravilhoso e um trombone que
dir-se-ia saído de New Orleans. Mais uma vez, Bruce reinventa.
Aquele que era um espiritual negro cantado nas igrejas do sul
passa a uma festa produzida por uma autêntica brass band.
Cheira a Preservation Hall, a cantina texana e que dizer do
piano final? Não lembra Dr. John?
John Henry arranca em jeito e ritmo bluegrass
e Bruce Springsteen canta-a com uma força quase espiritual.
“I’m gonna die with a hammer in my band, Lord, Lord…”
O banjo é uma delícia bluegrass, o acordeon um
sonho tejano. Bruce canta e rasga as cordas como um doido: “You
can hear John Henry’s hammer ring…”
Em Erie Canal, o Boss escolheu a princípio
uma aproximação muito melodiosa e melancólica.
Mais uma vez, o que dizer dos arranjos? Dá impressão
que o homem foi atingido pelo Furacão Katrina tão
influente é em determinados momentos o som de New Orleans
cozinhado com o banjo bluegrass.
Em Jacob’s Ladder, Bruce e a banda não
nos dão tempo de respirar. Mais um gospel vestido ao
jeito dessa grande cidade que será New Orleans. Está
lá o piano endiabrado, o trombone, o coro alegre, o acordeon
cajun. Tudo a dançar de guarda-sol na mão ao sol
da Louisianna ou do Mississipi.
My Oklahoma home é um hino folk dedicado
aos okies perdidos na “dust bowl” dos anos 30 e
a todos os filhos da Grande Depressão. O acompanhamento
do acordeon ou do baixo é mais light, não fosse
esta uma canção de combate, uma canção
de desespero, pobreza e vazio: “Oh my Oklahoma home is
blown away, yeah, it’s up there in the sky, in that dust
cloud over n’by, my Oklahoma home is in the sky”.
Eyes On The Prize é mais um hino e Bruce
Springsteen dá-lhe a solenidade que ele merece, o coro
soprando como um grupo de anjos e os instrumentos num crescendo
contido que acaba iluminado pelo violino e pelo acordeon. O
final é um funeral festivo em… New Orleans, pois
claro.
Shenandoah é pintada em tons sombrios.
Ouçam como o piano e o violino a respeitam e o coro acompanha
o Boss no que parece missa no topo dos Apalaches. Triste, sombria,
romântica, Shenandoah é um dos momentos mais simultaneamente
pausados e bonitos do disco, pinceladas de piano aqui, acordeon
céltico acolá.
Pay Me My Money Down termina aquele que tinha
uma intermezzo e acelera num ritmo cajun contagiante. Parece
que estamos em Opelousas, Louisianna ou em Laredo, Texas numa
dance hall e que uns cajuns e chicanos convidaram uns amigos
das montanhas do Kentucky para festejar.
A versão de We Shall Overcome era de
todas a mais arriscada por se tratar da canção
de protesto mais famosa de sempre. Bruce Springsteen dá-lhe
uma roupa entre o folk e o hino espiritual, enfatizando o poder
das vozes e da mensagem.
Froggie Went A Courtin’ é o que
poderíamos chamar de bluegrass progressivo ou bluegrass
moderno. Começa como se estivéssemos numa cabana
dos Apalaches nos anos 50 mas avança de forma muito inteligente
para a introdução faseada de instrumentos que
não pertencem à área da country ou do bluegrass
como o acordeão. Juntamente com Old Dan Tucker é,
apesar das inovações- ouça-se aquela batida
à White Stripes- a canção
mais bluegrass do álbum.
Magnífico. Obrigado, Bruce.
Nuno Ferreira |
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Pete Seeger é uma das grandes influências de
Bruce, que nas gravações do álbum se fez acompanhar
por:
. Sam Bardfeld (violino)
. Art Baron (tuba)
. Frank Bruno (guitarra)
. Jeremy Chatzy (baixo)
. Mark Clifford (banjo)
. Larry Eagle (bateria e percussão)
. Charles Giordano (orgão B3, piano e acordeão)
. Ed Manion (saxofone)
. Mark Pender (trompete)
. Richie "La Bamba" Rosenberg (trombone)
. Soozie Tyrell (violino)
. Lisa Lowell, Patti Scialfa,
Pender, Tyrell e Rosenberg
(segundas vozes)
: AGRADECIMENTOS
A crítica ao álbum de Springsteen,
é feita por Nuno Ferreira, jornalista
e autor do blog Estradas
Perdidas.
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